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O Lugar da Psicologia nas Humanidades

O Lugar da Psicologia nas Humanidades
por Manuel Muñoz 


A origem do pensamento é a admiração, e o espanto, diante do universo e de nós mesmos. Do mesmo modo, a  onte primordial do pensar é a indagação, o questionamento, o enunciar as perguntas diante do desconhecido, assim como do conhecido e do por ainda conhecer. Fazer as perguntas fundamentais é atividade vitalmente necessária para a reflexão e o conhecimento, para a existência humana, em última instância. 

A palavra “humanidades” tem como referência fundamental a categoria ser humano. Nesse sentido, não se procura apenas refletir sobre temas relativos à existência humana, mas busca-se possibilitar uma existência verdadeiramente humana num contexto sócio-cultural onde o tecnicismo, o economicismo e o imediatismo intelectual predominam. Assim, conforme o texto-base da justificativa político-pedagógica das Humanidades coloca, o seu campo de estudos “pretende-se um centro aglutinador que indica linhas de reconstrução humana necessárias em vários domínios do mundo acadêmico, reconfigurando as relações entre as pessoas de forma integral - em sociedade, com a natureza, com a psique e com o divino”. 

O Núcleo de Humanidades não cria nem inventa os problemas fundamentais do ser humano. Apenas os reconhece, assume e examina criticamente, tentando procurar de forma dialógica respostas que possam iluminar a existência concreta dos membros da comunidade acadêmica envolvidos. No processo de significação e ressignificação existencial provocado, dar-se-á uma, de forma paralela, uma ressignificação das relações sociais. O reconhecimento da complexidade e pluridimensionalidade do humano nos permite partir das perguntas fundamentais para quebrar o gueto das ciências humanas, divididas em disciplinas quase irreconciliáveis, e elaborar uma proposta interdisciplinar que relacione as dimensões biopsíquica, sócio-política, econômica, filosófica, cultural e religiosa da existência humana num único lócus reflexivo/dialógico. 

Quem sou eu? Qual é o sentido e limite de minha existência? Por que vivo em sociedade? Onde estou? Estes interrogantes sobre o humano não nascem hoje, nem são o fruto primário de uma curiosidade científica, encaminhada ao aumento do saber. Impõem-se por si mesmos. São inerentes à existência problemática do ser humano[1]. Têm sido em todas as épocas e culturas inseparáveis companheiros de viagem do ser humano. A realidade problemática do ser humano o obriga a buscar respostas e posicionar-se. 

A pergunta de quem é o ser humano tem sido respondida, ao longo da história do pensamento, de diferentes maneiras. Alguns responderam: somos o que fizeram de nós. Nós, desde a Psicologia, retrucamos: não somente isso. O essencial do ser humano é o que ele consegue construir a partir de seu entorno existencial e do que fizeram dele[2]. Isto é, o ser humano começa a se construir, se subjetivar, quando descobre a resposta às perguntas quem e por que sou o que sou? Isto acontece no momento em que a pessoa consegue parar para pensar, refletir. Esse processo reflexivo leva à consciência, e esta leva à liberdade e à responsabilidade. Esta é a grande contribuição da Psicologia ao Núcleo de Humanidades do Centro Universitário Metodista Isabela Hendrix: ajudar na construção de nossa subjetividade de forma a fazer nossa consciência crescer e, conseqüentemente, nossa liberdade e responsabilidade como seres humanos inseridos num projeto social e planetário maior. 

São numerosas e fascinantes as peças do quebra-cabeça da natureza humana. A Psicologia pode-nos guiar nos espaços interiores do cérebro e da mente e nas dimensões exteriores do comportamento humanos. Permite-nos investigar os processos que dão estrutura de significado às nossas experiências, tais como a forma como percebemos o mundo, nos comunicamos, aprendemos, pensamos e lembramos. Nos ajuda a entender as expressões mais dramáticas da natureza humana: a forma e as razões pelas quais sonhamos, nos apaixonamos, nos inibimos, somos agressivos e adoecemos. Mas também, o conhecimento psicológico pode e deve ser usado para compreender e transformar (humanizar, em última instância) a vida social. 

Sirva como exemplo e conclusão do nosso texto um fato paradigmático da importância do conhecimento psicológico na humanização da convivência social: a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 1954, no caso conhecido como Brown versus Board of Education of Topeca[3] que tornou ilegais as escolas segregadas para crianças brancas e negras, em base a testemunho de psicólogos e cientistas sociais que apresentaram pesquisas sobre os danos psicológicos acarretados pela segregação em crianças negras. 

Referências:

[1] GEVAERT, Joseph. El problema del hombre. Introducción a la Antropología Filosófica. Salamanca: Sígueme, 1983. 


[2] GUARESCHI, Pedrinho. Psicologia social crítica como prática de libertação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. 


[3] GERRIG, Richard J.; ZIMBARDO, Philip G. A Psicologia e a vida. 16 ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.