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O Lugar da Sociologia no Projeto Político-Pedagógico das Humanidades na Universidade

O Lugar da Sociologia no Projeto Político-Pedagógico das Humanidades na Universidade
por Leonor N. de Medeiros Campos 

 

“ Estou convencido, porém, de que a rigorosidade, a séria disciplina intelectual, o exercício da curiosidade epistemológica não me fazem necessariamente um ser mal-amado, arrogante, cheio de mim mesmo. Ou, em outras palavras, não é a minha arrogância intelectual a que fala de minha rigorosidade científica, nem a arrogância é sinal de competência nem a competência é causa de arrogância. Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência de simplicidade que, não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor. Gente mais gente“. (Paulo Freire) 


A modernidade traz o conhecimento como o produto de um saber que é o conhecimento cientifico. Esse conhecimento além de instrumental como evolução interna é determinante para sua autonomia. Desse modo a Sociologia, como modo de explicação científica do comportamento social e das condições sociais de existência dos seres vivos, representa um produto recente do pensamento moderno. E, qual é o lugar da sociologia no projeto político-pedagógico das Humanidades na Universidade? 

A desnaturalização das explicações acerca dos fenômenos sociais ao lado do estranhamento em relação às situações cotidianas são as duas grandes contribuições da área científica das Ciências Sociais à formação de sujeitos críticos. O convite à reflexão acerca do mundo e de nosso lugar nele é uma das tarefas que cabe a Sociologia no âmbito universitário. 

Assim, a Sociologia pode oferecer aos alunos reflexões que problematizem os valores que circulam e formam a realidade social em suas dimensões econômicas, políticas e culturais, construindo e reconstruindo modos de pensar. Por isso, o raciocínio sociológico pode dar instrumentos aos alunos para que eles mesmos possam buscar entender o seu mundo nas dimensões micro (cotidiano, relações pessoais) e macro (sistemas sociais, instituições). 

Outra contribuição da Sociologia é o seu caráter informativo, ou seja, devido aos assuntos que pode discutir em aula, a disciplina atua na disseminação de informações importantes para a compreensão e intervenção do aluno em sua realidade. Um exemplo disso é o tema “direitos e deveres”, pois o que se verifica nas escolas é o desconhecimento da maior parte dos alunos em relação aos seus direitos e deveres como cidadão (ou, até mesmo, a possibilidade de crítica a essa concepção de ”cidadania”). É necessário desenvolver a curiosidade, típica dos seres humanos, em uma dimensão epistemológica. (FREIRE, 1997) 

Assim, educar politicamente é revelar ao indivíduo a verdade sobre o contexto social em que vive e sua posição nele, para que essa verdade exerça todo o poder mobilizador. Se a justificativa da ação humana não se limita à satisfação de necessidades de origem biológica, física ou instintiva, o seu sentido deve ser buscado em elementos da vida social e da cultura. A sociologia clássica, em Durkheim e Weber, já reconhecia o caráter valorativo e significativo da ação humana e sua importância na explicação da vida social. 

Na verdade, toda cultura dispõe de técnicas de explicação do mundo, cujas aplicações são muito variadas. Entre as aplicações que elas podem receber, estão as que dizem respeito ao próprio homem, às suas relações com a natureza, com os animais ou com outros seres humanos, às instituições sociais, ao sagrado e ao destino humano. O mito, a religião e a filosofia constituem as principais formas pré-científicas de consciência e de explicação das condições de existência social. (MARX, 1983). 

É que, como notou Dukheim (1963), “ elas tinham, com efeito, por objeto não explicar as sociedades tais ou quais elas são ou tais ou quais elas foram, mas indagar o que as sociedades devem ser, como elas devem organizar-se, para serem tão perfeitas quanto possível.” Nesse contexto a ciência da sociedade ganha nova importância e se confronta com novos desafios. 

O acúmulo histórico das ciências humanas pode contribuir significativamente com a reflexão da democracia, assim como entendemos que a sociologia é de uma relevância muito grande, principalmente ao tratar da ciência e tecnologia. A questão ética da pesquisa científica atual, principalmente com a biotecnologia apoiada na engenharia genética, a robótica e a telemática precisam ser discutidas com a mais ampla publicidade crítica e a universidade, como espaço público, deve privilegiar esse debate. 

Entendemos que as ciências humanas devem participar centralmente na problematização dessas questões, numa tentativa de quebrar a linearidade como tem sido abordado o conhecimento científico, procurando construir um relativo distanciamento da realidade para permitir uma intervenção mais crítica e qualificada dos universitários nos debates cotidianos. 

Tal formação pode levar a superação de atitudes passivas diante da realidade, transformando-as em ativas no exercício de cidadania, baseadas no coletivo, na indignação ética, no comprometimento conjunto de se fazer surgir um viver democrático, uma sociedade plural, onde o respeito aos diferentes grupos que a constituem sejam valor maior a ser efetivamente vivenciado. 

Se a separação entre ciências humanas e exatas constituiu parte de uma estratégia de dominação, a partir da divisão de classes, cabe então defender, na universidade, uma proposta unitária do conhecimento. Aliás, a fragmentação é contrária ao próprio significado de universidade. 

Problematizar criticamente a importância da técnica na sociedade e dos pressupostos da ciência positivista nos parece uma função insubstituível das ciências humanas na universidade. Mas, pensamos que isso deva ser realizado a partir de cada área do saber, procurando estabelecer a relação entre as especificidades de cada área com o contexto global do conhecimento e da sociedade. 

A formação humanística na universidade diz respeito, ainda, à inserção social do profissional. Toda profissão é uma prestação de serviço à sociedade. A formação humanística está associada à idéia de que um profissional precisa ser preparado para dar conta da função social de sua profissão. 

Concluindo, entendemos que as ciências humanas, diante da formação acadêmica profissional na universidade, têm ainda o desafio de refletir radicalmente o significado do conhecimento, da cultura humana e, em especial, da própria ciência. O reconhecimento de que a ciência é apenas uma das linguagens acerca do mundo, possibilita uma formação mais ampliada dos profissionais que, antes de tudo, são seres humanos, produtores de cultura. O aprender a pensar é tarefa de todos que constroem conhecimento e o domínio de um discurso crítico, além de ser uma exigência para a universidade, é uma característica de humanidade que desenvolvemos ao longo da história, através da linguagem. (ANDRIOLI, 2006) 

Referencias bibliográficas: 

ANDRIOLI, Antônio Inácio. O lugar das ciências humanas na universidade. OEI. Revista Iberoamericana de Educación. n.37/5. jan.2006. 
DURKHEIM, Émile. Educação e sociologia. São Paulo: Nacional, 1963. 
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. São Paulo: Paz e Terra, 1997. 
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos [1848 ], in FROMM, Erich, Conceito marxista do homem. 8.ed. Rio de Janeiro, Zahar. 1983. 
WEBER, Max. Conceitos básicos de sociologia. São Paulo, Moraes, 1987.